Os outros jogadores soltam um urro e vão levar a boa nova ao técnico Orlando Cavedine. Às 15h30min, estoura o foguetório. O Grêmio entra em campo. Vem com Júlio, Clarel e Rui, Vinicius, Touguinha e Sanguinetti, Bentevi e Bombachudo, Ramón Castro, Ivo Aguiar e Mário. O técnico, que senta no banco usando terno e gravata, é Telêmaco Frazão de Lima. Logo a seguir, mais foguetes. É o Inter que entra: Ivo, Alfeu e Nena, Assis, Ávila e Abigail formam a defesa. No ataque, a primeira surpresa: Tessourinha, o ponta-direita, vem como meia-direita, sendo escalado o uruguaio Volpi em sua posição. Adãozinho é o centroavante, Motorzinho o meia-esquerda. E, na ponta, a grande surpresa da tarde, que faz a torcida delirar: Carlitos.
As três rádios de Porto Alegre descrevem as cenas. Na cabine da Rádio Gaúcha está Oduvaldo Cozi, que veio à passeio e foi convidado a narrar o jogo. Com sua voz anasalada, Cozzi recorre as palavras poéticas para expressar as emoções que antecedem o grande jogo.
O juiz, o elegante senhor Henrique Maia Failace, o Rei do Apito, ordena o início. Adãozinho passa a Tessourinha, que estica um passe em diagonal a esquerda. Carlitos entra correndo, leva no peito e, da entrada da área, de canhota, acerta o ângulo esquerdo. Vai lá dentro do gol, pega a bola, corre para o centro e coloca-a na marca. A torcida do Inter sacode as arquibancadas fazendo a maior barulheira. Os jogadores do Grêmio, como sua torcida, estão paralisados. Quando vão tocar na bola pela primeira vez, já está 1 a 0.
Mas reagem, tornando o jogo parelho. O Grêmio é um bom time. Tem Júlio, um goleiro que espira confiança; Clarel, beque-central forte, autoritário; Touguinha, centromédio lutador e técnico; Bentevi, um ponta veloz; e, principalmente, Ramón Castro, um centroavante uruguaio de grande classe, exímio cabeceador.
Mas o Internacional é o Rolo-Compressor, o grande time do Estado, com um grande jogador em cada posição. Hoje, os seus maiores destaque estão sendo Tessourinha e Adãozinho. Tessourinha, vindo de trás, ziguezagueia entre os adversários em dribles estonteantes. E Adãozinho, um negrinho atrevido, torna a vida de Clarel um inferno.
Aos 25 minutos, Carlitos se choca com Vinicius e cai gemendo. Sentiu o joelho. Alfeu, Nena e Tessourinha se olham, sérios, com uma certa dor na consciência. Carliros se recusa a sair. Não vai deixar o time com dez. já cumpriu a sua parte, mas acha que tem de ir até o fim. Quando o primeiro tempo termina, é o Grêmio que está pressionando, aproveitando a vantagem.
Aos 8 minutos do segundo tempo, Carlitos encontra forças para bater um escanteio. Júlio responde de soco e a bola cai nos pés de Volpi. É o segundo gol. Agora, vem o baile, apostam os colorados, certos de que o Grêmio está morto. Mas aquela seria, a rigor, a ultima carga do Internacional sobre o gol do Grêmio. A partir dali, o jogo exigiria muito mais que raça, garra - heroísmo até - do que qualquer outra coisa.
Lodo depois do gol, o lateral-direito Assis se machuca e vai ficar parado na ponta-direita - Volpi vem para o meio e Tessourinha passa para o lugar de Assis. Carlitos anda capengando pela ponta-esquerda. O Internacional recua. O Ataque de resume a Adãozinho.
O Grêmio vem todo para a frente. Aos 22 minutos, Ramón Castro cabeceia, a bola bate na trave. Anos 23, Sanguinetti estica o passe a Bentevi na direita. O cruzamento vem alto, no segundo poste. Ramón Castro, desta vez acerta. A torcida do Grêmio se levanta. Em gritaria, pede a vitória. Confia nela. Afinal, o Grêmio tem tradição de grandes viradas - quantas vezes fez dois, três gols em cinco minutos? Certamente, vai ser fácil agora, que o Internacional tem apenas nove homens úteis.
Pouco depois, Alfeu torce o joelho. São oito homens úteis.
A torcida do Grêmio se agita ainda mais. Lá dentro os jogadores respondem atacando em avalanche. Aos 30, o goleiro Ivo defende um gol certo de Bentevi. Aos 32, Nena desarma Ramón Castro de carrinho, quando o uruguaio ia marcar.
O ataque do Internacional só tem aleijados: Assis, Alfeu e CArlitos. Adãozinho está cá na intermediaria, tentando segurar o jogo. O meia Motorzinho é um beque ao lado de Nena. Ávila, o centromédio, um enorme negro de voz forte, posta-se na meia-lua da área e comanda a resistência dali. Não se cansa de rugir para Volpi.
- Luta, castellhano covarde.
Volpi, muito clássico, muito jovem, tem medo de meter o pé nas divididas. Não é homem para Gre-Nal. Nesta hora, é como se o Internacional estivesse jogando com sete.
E o Grêmio em cima. Touquinha, sem marcação, dá as cartas no meio-de-campo. Os laterais Vinicius e Sanguinetti são atacantes, o cerco é completo. O gol deve sair a qualquer momento. Não é possível que Ivo e seus beques improvisados continuem resistindo por muito tempo.
O jogo vai chegando ao fim. Aos 42, Ivo faz a sua maior defesa, num chute de Bombachudo. Aos 45, depois da cobrança de um escanteio, forma-se o intrevero e Ivo fica fora do lance. Ivo Aguiar tem o gol livre à sua frente e toca. Quando vai gritar gol, um negro se atira esticando a perna, desvia e fica ali, deitado, gemendo, apertando o joelho. Era Alfeu.
O Jogo termina assim. Junto com o alívio, vem a vontade de chorar. E muitos jogadores choram abraçados a Assis, Alfeu e Carlitos - os heróis. Mas a torcida pula o parapeito e acorda os jogadores erguendo-os no ar; o Internacional é petacampeão da cidade.
Em carros aberto, eles são levados até o Estádio dos Eucaliptos bem devagar, cercados pelo povo. Lá durante o Carnaval, aparecem o presidente do Grêmio, Martim Aranha, e o diretor Balbino Ermida, para apresentarem os comprimentos de seu clube. São muito aplaudidos. Os dirigentes do Internacional anunciam o prêmio: três contos de réis para cada jogador.

Enquando o Cadillac preto leva Carlitos de volta, ele vai pensando: "Três conto de réis é a metade de um terreno que tem lá perto de casa. Valeu a pena? Não, não foi por isso que eu concordei em entrar em campo".
Depois disso, ficou um mês em casa. Curando o joelho."
Texto e Fotos: Edição Especial Revista Placar - Abril de 1979 Ed. Abril
(Créditos à Breno Barrera, colecionador.)
SAUDAÇÕES COLORADAS!
Bloguista Rafaela Ribeiro